Prefeitura de Diadema

28 de dezembro de 2023

Serviço da Prefeitura acolhe pessoas com deficiência que sofreram violência ou abandono por parte da família

Não é fácil cuidar de um filho ou um parente com deficiência. Os desafios são diários e é preciso reestruturar toda a dinâmica da família para que esta pessoa seja bem recebida e, principalmente, bem tratada. Infelizmente, esse nem sempre é o caso.

“Todos que estão aqui sofreram algum tipo de violação de direitos, como abandono, negligência ou até mesmo violência,” explica a psicóloga Erica Prudente, parte da equipe técnica da Residência Inclusiva, a primeira da região a oferecer acolhimento e proteção para pessoas com deficiência que não têm suporte familiar. Um espaço custeado pela prefeitura e sob gestão do Instituto de Ação Social Eneás Tognini, vencedor do edital municipal que ofereceu o serviço.

“A pessoa chega pelo CREAS, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social,” continua Érica. “Eles que fazem a avaliação e decidem se é o caso de vir para a Residência Inclusiva. Quando o CREAS detecta essas situações e avalia que a família não tem condições de dar uma retaguarda para o familiar com deficiência ou se existe a ausência de um cuidador familiar, por exemplo, se a pessoa que cumpria esse papel faleceu ou foi presa, afastada por algum motivo, a pessoa com deficiência é apta a se tornar um residente.”

Mas nem sempre é maldade da família. “Às vezes todos trabalham e não têm tempo, ou a mãe tem outros filhos com deficiência e não dá conta de todos, então todo esse contexto é avaliado,” explica a psicóloga.

Uma Casa Humanizada

A Residência Inclusiva atende 8 pessoas de 18 a 59 anos, com todos os tipos de deficiência, principalmente Intelectual, mas não só. Para dar todo o suporte necessário, a equipe conta com um coordenador, uma psicóloga, uma assistente social, 10 cuidadores e uma oficineira, além de cozinheira, auxiliar de limpeza e motorista. Grande parte da equipe se reveza em turnos para a casa contar com assistência 24 hora por dia.

“É inclusiva por isso, porque as atividades e a convivência são de acordo com a necessidade de cada um,” explica Fernando Cintra, coordenador da Residência. “Aqui eles arrumam as camas, tomam banho (na medida do possível) sozinhos, colocam a comida no prato, limpam tudo depois, saem (com o cuidador), vão na feira, estudam. Nas atividades, eles conversam sobre a percepção da própria deficiência, sobre cidadania, sobre reconhecer o território onde moram, sobre direitos. É um tratamento humanizado, visando estimular cada vez mais a autonomia de cada um. Mas aqui é a casa deles, e eles têm toda a liberdade.”

Além disso, o cuidado é bem personalizado. “As instituições de onde eles vêm, por mais que sejam de qualidade, tratam de muitas pessoas ao mesmo tempo. Aqui, com um número reduzido, a atenção a cada particularidade é maior, é um tratamento bem humanizado,” resume Fernando.

Quando uma pessoa com deficiência chega na casa, ou é porque ocorreu algum rompimento no vínculo familiar ou ela não tem família. O acolhimento então é feito enquanto se trabalha a família para uma reinserção, ou até ser localizada a família extensa, algum outro parente mais afastado. Em todos os casos, há a possibilidade até dos residentes receberem visitas, enquanto esse vínculo é fortalecido.

“O trabalho da assistência é esse, fortalecer a família para cuidar, para que os membros da família tenham seus direitos garantidos,” afirma Fernando. “O trabalho nosso não é só aqui. É o trabalho com a família, porque o que a gente quer é o bem estar de toda a família.”

Dona Nilza (ao fundo, com a cuidadora) ao lado de outros residentes:
“Essa casa salvou a minha vida”

Dona Nilza já foi professora, mas teve um problema de saúde e parou de andar. Ela vivia sozinha, mas no mesmo quintal que duas sobrinhas, que deveriam lhe prestar ajuda. “Mas elas me maltratavam,” afirmou a senhora, os olhos marejados. Nilza chegou a ter picos de depressão, foi hospitalizada e pensou até em acabar com tudo. Segundo ela, a vinda para a Residência Inclusiva foi a melhor coisa que lhe aconteceu. “Me senti acolhida. Nunca tive em casa a atenção que tenho aqui.” Ela, que adora ler e escrever, encontrou ali o ambiente saudável que não conhecia há muito tempo. Está até voltando a andar. “Salvou a minha vida,” contou.

Desafios

A psicóloga Érica aponta alguns obstáculos a serem enfrentados. “Primeiro, uma realidade: os pais estão envelhecendo e não estão conseguindo mais prestar o cuidado que dispensavam aos filhos. É quando entram as redes socioassistenciais para prestar esse suporte. Por isso temos parcerias com a Saúde, com a Educação, enquanto trabalhamos aqui a Assistência Social.”

A psicóloga Érica e o coordenador Fernando:
“O trabalho nosso não é só aqui. É o trabalho com a família”

“Outro ponto sensível é a própria natureza do acolhimento,” continua ela. “Qualquer acolhimento não é a família. E quando eles vêm pra cá, há sempre uma ruptura e isso gera um stress, tanto pra eles quanto pra casa que os recebe. Aí entra a parte técnica para trabalhar essa adaptação. Pra equipe, inclusive, foi um desafio a mais por ser esta a primeira casa da região, um projeto piloto, então tivemos que pensar do zero em absolutamente tudo.”

O projeto está em seu primeiro ano e já há filas de residentes. “Queremos muito que a ideia vingue, para que outras casas como essa surjam em Diadema,” torce Érica.

por André Ribeiro / Fotos: Mauro Pedroso

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